1 - INTRODUÇÃO
Tem sido prioridade da equipa docente da nossa instituição desenvolver um projecto centrado nos alunos, na sua diversidade e na procura permanente de respostas educativas ajustadas ao grupo específico a que se destinam privilegiando:
Continuidade educativa – Processo que parte do que as crianças já sabem e aprenderam, criando condições para o sucesso nas aprendizagens seguintes;
Intencionalidade educativa – processo reflexivo de observação, planeamento, acção e avaliação do trabalho desenvolvido pelo educador, de forma a adequar a sua prática às necessidades da criança.
A planificação do trabalho é entendida como uma actividade conjunta entre os docentes em exercício no estabelecimento, envolvendo as famílias e a comunidade e considerando sempre o resultado das observações de cada criança e do grupo, no sentido de permitir uma diferenciação pedagógica e garantir a adequação do trabalho realizado ao grupo de crianças em causa.
2 - BREVE CARACTERIZAÇÃO DO MEIO
O Colégio Espaço Júnior está inserido na freguesia de Amora, que pertence ao concelho do Seixal, que está integrado no distrito de Setúbal e goza de uma situação geográfica privilegiada. Não só porque possui uma grande área, que é banhada por dois braços do rio Tejo e que portanto facilita o contacto com o exterior por via fluvial, mas também porque, por via terrestre foi sempre um ponto de passagem importante entre Cacilhas e o Sul, funcionando como parte do corredor que liga a capital ao sul do país.
Desde muito cedo se edificaram portos em toda a freguesia de Amora, para garantirem o escoamento de lenha, madeira, vinho e farinha, principais produtos desta área, com destino a Lisboa.
A propósito das riquezas, das águas do Rio Tejo, que ficavam na área da Amora, faziam-se aqui boas pescarias de muitos e variados peixes.
Data do séc. XV a edificação de um moinho de maré, que marca o início da industrialização na freguesia, embora com características pré-industriais, próprias da actividade moageira incentivada em toda a área do Seixal, desde a Idade Média.
A partir da segunda metade do séc. XIX, começaram-se a sentir os efeitos da máquina a vapor. É fundada a “Fábrica da Companhia de Vidros da Amora”, que se dedicava ao fabrico de garrafas e garrafões. Este estabelecimento fabril foi o primeiro do género a ser construído no país e revelou-se de grande interesse não só para a economia local, mas também para a nacional. Foi reduzida a importação de garrafas e garrafões que até então se adquiriam na Inglaterra e Alemanha.
Junto da fábrica foi construído um bairro operário, que ainda se pode observar, onde foram instalados os operários garrafeiros que inicialmente vieram de Inglaterra. Entre os vários efeitos provocados pela instalação desta fábrica, deve-se salientar o desenvolvimento do movimento associativo na freguesia. Mais tarde outras fábricas se ergueram na Amora. Durante este século também se instalaram estaleiros navais na freguesia.
Desde a Idade Média que vários fidalgos e a comunidade religiosa das Carmelitas tiveram propriedades na Amora como, em geral, em todo o concelho do Seixal.
Esta região serviu ainda de refúgio quando a peste afligia a capital.
A partir da segunda metade do século, as encantadoras quintas desta freguesia foram substituídas por blocos de cimento armado, que poucos vestígios deixaram do passado rural da área, a não ser os nomes que os bairros vão herdando das quintas antigas.
O acelerado processo de construção de bairros residenciais verificado nestas últimas décadas levou a um aumento extraordinário da população, vinda de outros locais e, na sua maioria, utilizando estas áreas de residência como “dormitórios”.
Deste modo, a maioria das famílias que aqui habita tem as suas crianças a frequentar as escolas da área de residência mas os progenitores trabalham em Lisboa o que interfere directamente com a sua disponibilidade para o acompanhamento das actividades escolares dos filhos.
3 - BREVE CARACTERIZAÇÃO DA INSTITUIÇÃO
O Colégio Espaço Júnior é uma instituição particular, construída de raiz, cujo projecto foi acompanhado e licenciado pelos organismos tutelares, tendo iniciado o seu funcionamento em Maio de 1997.
Embora a grande maioria das crianças inscritas na nossa instituição residam na freguesia de Amora, temos vindo a verificar a preferência pelos nossos serviços por famílias de outras freguesias do concelho.
Na concepção deste projecto foi tida como prioridade a construção de um espaço destinado à infância e sentido por ela como um espaço seu, ajustado aos seus interesses e motivações e que simultaneamente promova o seu desenvolvimento harmonioso, com os critérios de qualidade que as crianças merecem.
Os serviços prestados pelo Colégio destinam-se às seguintes valências e grupos etários:
Creche – a partir de um ano e até aos três anos, com lotação para 25 crianças;
Jardim-de-infância – dos três aos seis anos, com lotação para 75 crianças;
1º Ciclo do Ensino Básico – dos seis aos dez anos, com lotação para 51 crianças.
Tendo como objectivo constituir um espaço físico e humano adequado à criança e pensado em função dela, que promova o seu desenvolvimento valorizando os seus saberes, a sua expressão espontânea e a sua criatividade, não é descurada a qualificação das suas equipas de trabalho nem a coordenação dos trabalhos desenvolvidos nas diferentes salas.
4 - FUNDAMENTAÇÂO TEÒRICA
A concepção de aprendizagem que norteia o nosso trabalho tem por base os princípios do construtivismo social de Vygotstky e Piaget.
Piaget descreve um mecanismo de aprendizagem que envolve as crianças na elaboração activa das suas próprias estruturas mentais à medida que assimilam e incorporam novas experiências. Para Piaget este processo é alimentado pelo interesse e desencadeado por qualquer forma de desequilíbrio entre a experiência e os conhecimentos e capacidades prévios da criança. Piaget também defendeu que a adaptação intelectual da criança é tanto uma adaptação ao meio social como uma adaptação ao meio físico e social. Argumentou ainda que as relações adulto-criança influenciam todos os aspectos do desenvolvimento e que a reciprocidade nas relações entre pares fornece as bases para entender pontos de vista diferentes e para a descentração. Isto sugere que o jogo colaborativo é excepcionalmente importante para as crianças.
A Vygotstky se devem os fundamentos das teorias do ensino enquanto «representação assistida». Vygotstky citado por Formosinho, 1996, definiu a “zona de desenvolvimento próximo” como «… a distância entre o nível de desenvolvimento real, determinado pela resolução de problemas individuais, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado pela resolução de problemas com a ajuda de adultos ou em colaboração com alguns pares mais aptos.».
Os objectivos do ensino, segundo esta perspectiva, são ajudar as crianças dentro desta zona, fornecendo o apoio e o encorajamento que elas necessitam para serem bem sucedidas no seu desempenho em áreas que, de outra forma não estariam ao seu alcance. Para os educadores o principal desafio passa a ser definir os limites da zona, igualando ou «sintonizando» o apoio ou «a colocação de andaimes» (Word, Bruner e Ross, 1976), para além das reais capacidades de autonomia de cada criança.
Acreditamos que um currículo só é apropriado se for criado tendo em mente as necessidades e características de grupos individuais e específicos de crianças e que as crianças aprendem de modo activo.
Deste modo nenhum modelo de ensino-aprendizagem pode ser baseado na transmissão do conhecimento por parte do adulto educador, mas sim num modelo onde a investigação, a construção e a comunicação entre as crianças sejam palavras-chave. A natureza das actividades desenvolvidas pelas crianças tem uma importância fundamental, uma vez que é sobre a sua própria experiência que vão desenvolvendo os novos conhecimentos, construídos sobre o que já possuem e através do filtro das crenças e atitudes que “quase” inconscientemente transportam consigo.
Assim, estipulámos como metas:
Proporcionar às crianças actividades baseadas na experiência e que auxiliem a aprendizagem do currículo;
As actividades devem ser planeadas tendo em conta os grupos específicos a que se destinam;
Encorajar e desenvolver a aprendizagem cooperativa;
Estimular a resolução de problemas com base na observação directa do meio ambiente local;
Trabalhar cooperativamente com os pais e a comunidade;
Observar e avaliar o alcance da aprendizagem;
Desenvolver a responsabilidade social das crianças através da estrutura da sala de aula e de regras negociáveis;
Criar, dentro de cada sala de aula, um ambiente organizado, atractivo e entusiasmante.
5 - PROJECTO EDUCATIVO
Uma das grandes mudanças decorrentes do fenómeno da globalização diz respeito à natureza das relações entre as pessoas e os grupos sociais. A revolução tecnológica, científica e económica que caracteriza os tempos modernos tem vindo a suceder em simultâneo com fluxos migratórios constantes que, um pouco por todo o planeta, geram uma recomposição brusca do tecido social das cidades e dos seus subúrbios.
Esta amálgama de mudanças traduz-se no confronto directo de uma diversidade de culturas, crenças e hábitos de vida e alimenta a construção de novos significados sociais partilhados pelos grupos. A proximidade contribui para a aproximação de culturas, para o desenvolvimento de valores sociais universais e para o florescimento de declarações de princípios democráticos que co-responsabilizam todo o planeta humano na instauração de uma nova ordem social.
Mas é exactamente este mesmo cenário de globalização e a Multiculturalidade que origina muitos dos conflitos inter-grupais a que hoje assistimos, que fundamenta atitudes xenófobas e racistas, que fomenta a intolerância e os fundamentalismos, o individualismo economicista e o alheamento das causas sociais, a competição desenfreada por recursos, poder e ascensão económica. É este mesmo cenário que faz com que o bem-estar individual passe sistematicamente à frente do bem-estar colectivo.
Foi com base na reflexão sobre estes factos que nasceu o tema para o projecto educativo da nossa instituição, para o triénio 2008/20011; “Educar para a Multiculturalidade”. Parece-nos consensual a ideia de que a diversidade é uma realidade que impõe novas responsabilidades à escola e aos professores e que, longe de constituir um obstáculo ou um problema, essa diversidade é uma riqueza, uma vez que todos os alunos ganham conhecimentos sobre outras culturas e formas de estar, desenvolvendo atitudes de tolerância e de respeito pela diversidade, ajudando a combater os preconceitos e estereótipos.
Ao fomentar condutas e atitudes baseadas na tolerância, na solidariedade, na responsabilidade e no respeito, a educação para a Multiculturalidade constitui, a longo prazo, um importante instrumento na prevenção das violações dos direitos e liberdades fundamentais, preparando as crianças para o seu futuro papel de cidadãos que conhecem os seus direitos e respeitam e promovem os do próximo.
Educar para a Multiculturalidade parece-nos a forma de sonhar uma nova geração onde a democracia e os direitos humanos estejam interiorizados como formas de estar na vida e na relação com os outros.